Enjeitada pelo alcaide (por terem gasto com ela o que não havia para gastar) vagueava pela rua. Era impossível para quem passava, não reparar na sua extrema beleza, mesmo despida das roupagens que ostentou nos tempos da abastança. Andrajosa, mas linda (!) e tinha sempre um sorriso sedutor para os muitos pretendentes que se aproximavam dela e a quem ia contando a sua história de ascensão e de queda.
O pai já se tinha ido há muitos anos e, embora rodeada de gente amiga que sempre a soube estimar, vivia há algum tempo sob a alçada do alcaide do Monte da Lua que gostava dela, mas não era ela a preferida lá de casa. Para com ela, podia esperar-se dele o melhor, mas também o pior.
- Não posso continuar a sustentá-la! Os tempos estão difíceis e deixei de ter meios para o fazer. Mas também não reconheço a qualquer de vós, condições para casar com ela – dizia ele aos que ousavam pedir-lhe a mão da bela moira.
Eram muitos os que a queriam e ficaram inconformados com o destino que se adivinhava traçado à pobre donzela. Juntaram-se e, numa decisão pouco comum, resolveram:
- Não vamos apoderar-nos dela. Mas também não a vamos deixar morrer na rua à míngua, cair no esquecimento, ou ficar à espera que os tempos mudem. Vamos cuidar dela com o carinho que ela merece e que só nós lhe sabemos dar e deixar que ela fique rodeada pelos que lhe querem bem. Um dia, alguém há-de ver que esta foi a medida acertada e então, voltará para o seu castelo com a segurança que nunca dantes teve. E, ao contrário do que acontecerá a quem a tutela e a quem a ama, ela ficará imune às rugas do tempo. Esse cuidado é o nosso compromisso de honra, que aqui se regista.
Ano da Graça de 2012, aos 7 dias do mês de Janeiro.
Os Conjurados

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