A iniciação
Um dia destes, em conversa com o meu amigo Tomé, ele dava largas ao seu contentamento, pois fazia um ano que ele tinha deixado de fumar. 3 maços (!) era o seu consumo diário. É claro que o dinheiro que ele poupou em não comprar tabaco, também não sabia onde estava, mas a verdade é que, entre outras vantagens, se sentia muito mais livre.
Dizia-me ele que não acreditava ter sido ele a tomar tão importante decisão, e que muita vez pensou assim : “- posso estar a morrer, mas acho que nunca vou deixar de fumar!”
Teimoso como era (e continua a ser), de nada lhe serviam os conselhos dos amigos. Mas um dia, há um ano, o Tomé apanhou gripe e teve de ficar “de molho” . Num gesto automático, como fazem todos aqueles que fumam, apesar de estar com tosse e com as vias aéreas obstruídas, puxa do seu cigarrito. Por sorte, soube-lhe tão mal…tão mal, que pôs os cigarros de lado, enquanto aguardava por estar em condições. O sabor horrível do cigarro, ficou a “martelar-lhe” na cabeça e a tentação de voltar a puxar dos “pregos” não tinha força nenhuma. E não era de contrariar.
-“- Como é que é possível? – pensava ele – teve que haver nisto uma força superior qualquer , pois eu sabia que nunca viria a ter força para deixar de fumar!”
-Abençoada gripe – disse-lhe. – Estou mesmo muito contente por teres conseguido, Tomé!
Veio, depois, a parte da conversa, que nos pôs a rir, no momento, mas que me deixou a matutar.
-E tu sabes quem é que me pôs a fumar ? –perguntou ele.
-Quem?
-Tu!
Não precisou de dizer mais nada, pois eu fiz uma regressão aos tempos de infância, na época em que ambos guardávamos ovelhas (sim, também éramos “guardadores de rebanhos” - uma dúzia de ovelhas já é rebanho) e passávamos muitas horas no campo, a tomar conta delas e a brincar. Na maioria das vezes era a brincar e a tomar conta delas, e, não poucas vezes , andarmos a procurá-las e a encontrá-las nos feijoais, depois de os devorarem .
Quando a imaginação para arranjarmos entretenimento falhava, lá vinham as ideias de “libertação” da nossa sina. Era preciso fazer qualquer coisa que nos ajudasse a passar o tempo. Assim, umas vezes ele, outras vezes eu, vínhamos a correr até à taberna de Ti Isaura comprar cigarros. Dos mais baratos, claro. Da marca “Kentucky”, conhecida por “mata-ratos”, que custava onze tostões. Claro que dizíamos que não era para nós, mas para o “Ti Franquelim, que estava a trabalhar na pedreira” (estava tudo estudado).
E assim passámos dias, agachados à beira de uma parede, a conversar e... a fumar.
Em suma: se eu tive a sorte de não ficar preso ao vício, o Tomé precisou de quase 40 anos para se libertar dele. E, de facto, eu tenho que assumir a minha quota - parte de responsabilidade nisso, ao ter ideias parvas para passar o tempo.
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